sábado, 17 de abril de 2010

Na Rua

Eu ia pela rua. A calçada era mais segura, mas eu preferia a rua.
Ia descendo contornando a calçada quando senti que havia esquecido a chave de casa. Parei para checar e demorei para encontrá-la. Mas estavam lá, perdidas no fundo da bolsa.

Olhei para frente e vi um rosto conhecido. Sim, era ele, vindo de encontro. Mas ele, sempre mais seguro que eu, andava pela calçada. Mas eu não tinha medo dos carros. Tinha medo dos olhos dele nos meus que tem o dom de congestionar tudo o que dentro de mim dorme.

Respirei fundo e caminhei querendo permanecer parada. Ele ia chegar perto. Ele ia parar e dizer algo.

Segurei a respiração e sequei na calça as mãos que suavam. Ele ia me olhar. Ele ia parar e me tocar com aqueles olhos frios e úmidos.

Apertei forte a chave entre meus dedos. Mordi meus lábios secos e saudosos.

E ele vinha. Lentamente.

Dois passos de mim.

Um passo.

Em mim.

Ele seguiu pela calçada.

Eu, pela rua. Doída e sem fim.



Texto: Duane Valentim

domingo, 14 de março de 2010

Vá com o Circo

E somos todos montados de passados. Todos nós. São gotas e gotas de alegrias e chuvas e chuvas de agonias. Tudo passado e que carregamos todos os dias no espaço sem fim da memória.

Os passados todos juntos poderiam ser apenas passados, mas não. Trombamos com o passado na primeira esquina ao sair de casa, e ele, na certeza de te ver, faz que não vê. Coisas passadas e mal resolvidas. Coisas doídas e sofridas. Vida.

Mas ficamos aqui, prontos para a apresentação do circo. Prontos para fazer a platéia sorrir da nossa cara. Prontos para ver o circo levar os anos de apresentações, anos de solidão a dois. Prontos para sermos aplaudidos pelo ruído da voz que grita aqui dentro. Voz que chama, que é chamada. Voz que cansa e tem raiva. Voz que odeia a sensação do ridículo de se ver passar o passado, e ao passar, fazer não ver.

Continue andando e me deixe aqui. A platéia tem mais para rir. Ainda somos capazes de sorrir para a foto. Sorria! O passado não fica gravado na superfície da face, só nas profundezas das ironias.

Vá embora com o circo. Eu fico. Antes palhaça de mim.



Texto: Duane Valentim

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Singela

O silenciar discreto no barulho alto daqui de dentro.
O calar a voz rouca que teima em sair.
O falar entre sorrisos a dor que quer existir.


Abrir os braços para seus passos,
meu sorriso para seu riso,
meu dançar para seu aproximar.


Luz do acaso amanhece na janela.
Mais uma noite se encerra.
A noite que foi só dela.



Texto: Duane Valentim

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Nossos Mares

Nossos mares possuem ondas que trazem para superfície areias que lá no fundo, dormindo estão.
As ondas voltam e vem e vão...

Nossas águas percorrem oceanos diversos. Nossos ventos nos levam a caminhos incertos. 
Estamos distantes, mas perto.

As chuvas e tempestades sempre foram mais intensas em minhas águas. Os barcos que por mim percorrem, com a esperança de alegrias encontrarem, sempre naufragam no rodamoinho mais próximo das terras da lembrança. 
E os barcos vão e vem e não voltam.


Nossos mares não se buscam, mas se encontram em territórios conhecidos de águas antigas que nos formou. Esses encontros são cheios de marés de sorrisos, de luas cheias e estrelas do sul. A noite corre e nossas correntezas nos devolvem a distâncias anteriores.

O tempo devolve a calmaria.
Novos barcos se aproximam.
Novos dias...

E de todos os vais-e-vens das ondas que trazemos, nossos mares sabem que é inevitável não nos transbordarmos.


Texto: Duane Valentim
Imagem: Elvio Santiago

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O malabarista

caminhando ao som do silêncio
sorrindo as cores do céu nublado
alongando as ferrugens do acaso.

dias que chegam e que se vão,
dias que não chegam e estão,
dias em vão.

traga outro copo:
seja bem vinda Felicidade!


Texto: Duane Valentim

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Le Cirque



E o vento se veste de cinza e corre por entre as ruas onde ela está. E é fácil de enganá-la. Basta assoprar algumas palavras aveludadas, assoviar no ouvido da dor ou fazê-la fechar os olhos diante da poeira que ele próprio levanta.

E o vento se faz de amigo e se senta diante dos pés dela. E é tão fácil de fazê-la sorrir. Basta agitar os cantos da alma, bater as portas antigas e escancarar as janelas de vidro que ela insiste em lustrar.

Mas o vento vem vindo de longe. Nunca se sabe qual das esquinas o fará parar.

E é difícil de enganá-lo.
E ela não o vê.
E ele se aproxima.
E ela abre os braços.
E ele a envolve.
E ela não respira.
E ele passa. Levou tudo dela.
Que palhaça!


Texto: Duane Valentim
Imagem: Filme : The Science of Sleep

domingo, 24 de janeiro de 2010

Valsinha



Era a noite da ansiedade.

Ele entrou pela porta e correu seus olhos de encontro aos olhos dela. Ela sorria com o coração e apenas esboçou um leve gesto de cumprimento.

O som da voz dele fazia com que os seus pés se encolhessem por de baixo da mesa e se agitassem. O sorriso macio e calmo dele abria nela as portas da imaginação. Os sonhos todos saltavam pelo brilho dos olhos dela.

Era a noite da ansiedade.

As mãos dele tocaram as dela. Trocaram algumas palavras que ela não lembra. Ela procurava nele os sons. Ele tocou. Ele tocou para ela todas as músicas que há tempos ela não ouvia.
Ela sorria e sentia. Ouvia e sorria.

Era a noite da alegria.

Eles se completaram de poesias no silêncio de um abraço infinito. E eles se gravaram pelos olhos um do outro e se entenderam com os dedos enlaçados. Despediram-se infinitamente da noite tranqüila e veloz.

O sino tocou.

Serão as noites da saudade.



Texto: Duane Valentim
Imagem: Noite estrelada - Van Gogh

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Duplo

São feitos de palavras, de sorrisos perdidos e olhares trombados.

São mãos que se tocam, se prendem, se afastam.

São feitos de açúcar, de algodão doce e chocolate.

São pés que se esbarram, se aproximam, se gastam.

São feitos de pôr-do-sol, de arco-íris e de chuva fina.

São beijos que se buscam, se encontram, se calam.

São feitos de sal, de água e de mar.

São cabelos que se soltam, se enlaçam, se prendem.

São feitos de sonhos, de magia e de alegrias.

Bagagens...



Texto: Duane Valentim

sábado, 16 de janeiro de 2010

A Espera


E ela esperou. Não sabia bem o que, mas esperou. Ficou num canto calada vendo as pessoas passarem de lá pra cá. Cutucou todos os cantos de seus dedos, enrolou fechos de cabelo. Bateu os pés num ritmo alheio ao som que tocava e sorriu para todos os conhecidos que passavam.

Ela sentou e esperou. Olhou para si e sentiu pena do que via. Por que esperava? Qual o momento mentiroso que a fez querer esperar? Para que olhar tanto para a porta, ele não vem. É tarde. 

Ela se foi. Calou a lágrima que insistia em gritar, engoliu o soluço que insistia em saltar e trancou o coração que insistia em amar.

E ela se foi. Andou pelas ruas vazias iluminadas pelo silêncio de sua solidão. Tinha todos os motivos para entender que ele não viria, mas ainda olhava para trás na esperança de ver surgir, entre uma esquina e outra, o rosto que tanto imaginava.

E ela calou.

Ele não veio. Machucava. Se ele viesse, depois machucava. Feridas machucam perto, longe, sem precisarem ser cutucadas. São feridas e ele nem sabia o que nela havia cravado. Eis o mal de todo ele que rouba o ela do hoje sem saber que amanhã ela espera. E o amanhã vem. Ele não.


Texto: Duane Valentim
Imagem: Modigliane

domingo, 10 de janeiro de 2010

Acalanto

Sorria menina, sorria. Há tanta gente te olhando. Sorria para disfarçar todos os buracos que carrega ai dentro. Há tanta gente por perto. Há tanto detalhe encoberto.

Se arrume menina, se arrume. Maquie toda e qualquer imperfeição. As gentes não merecem saber da sua solidão. Pinte os olhos e a boca com cores de fingimento e passe um pó para tapar os trincos da agonia.

Alise cada fio de dor, cada frizz de amor, cada gesto de pavor. Seque as lágrimas e sorria, menina. As gentes não se importam com o que você carrega. As gentes só se importam com o como você carrega. Não vale chorar, não vale sofrer, não vale gritar, não vale se esconder.

Apareça menina, apareça. Sempre sorrindo. Cabeça erguida. Passo firme. As gentes precisam saber que você esta bem. Precisam se distrair olhando para os detalhes de fora e assim, nunca repararão no fardo que carrega ai dentro.

E entenda menina, entenda...haverá um momento em que fingir para as gentes inclui fingir para si mesma e que neste jogo de faz de conta, um dia você se dá conta que o vazio que te ocupava foi preenchido por momentos opacos, tristes e mentirosos e que, por terem sido acumulados durante tanto tempo, já não mais descolarão. E que por terem sido acumulados durante tanto tempo, nem mais te incomodarão.

Sorria menina. Sorria...



Texto:  Duane Valentim
Imagem: Renoir

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Coxia

Foi a primeira vez, depois de tanto tempo, que meus olhos tocaram os seus carregando mãos diferentes.

Já havia visto e sentido outros carregares seus. Já havia sentido e doído de diferentes formas. Já havia visto seus olhos em outros olhos e suas mãos em outras mãos.

Já havia sorriso com o peito ferido. Já havia fingido não ter visto e, entre tantas e tantos, já havia aprendido a não fazer doer.

Eis que pela primeira vez, ocupados, meus olhos não te buscaram. Fecharam-se diante do ar fresco da noite e calaram outros olhos, que não os seus.

E na aventura desaventurada de qualquer madrugada silenciosa, fechei meus olhos cansados e tristonhos para todo e qualquer movimento que me fizesse recordar você.

E foi a primeira vez que vi sem precisar te ver.



Texto: Duane Valentim
Imagem: Pintores D'Avinci (Kim Molinero)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Vermelho no Cinza

Ela caminhou em direção a porta e sentou-se. Olhou para o céu ensolarado com seus olhos vazios e cansados, mas sorriu.

Um carro qualquer parou em frente ao portão vizinho. Ela reconheceu o som que de dentro dele saia e seus pés se movimentaram de um lado para o outro inconscientemente.

Ela estava cansada e preguiçosa, mas levantou-se. Fechou os olhos, abriu seus braços e fez com que seus pés acompanhassem a música que vinha por detrás do muro.

Como uma criança, ela dançou. Rodopiou por todos os espaços inabitados e soterrados por ventos antigos.

Como um bêbado, deixou seu corpo solto e mole, e dançou lentamente:

os seus braços soltos para o ar,

os lábios soltos para o céu

e os pés soltos para o chão.

Uma alegria inexplicável aveludava seus pensamentos.

Desligou-se do todo vindo lá de fora e ligou o todo que carregava ali dentro.

Sorriu para si. Afogou os mares de seus olhos e matou todos os ventos que insistiam nela esbarrar.

Dançava e sentia-se leve.

Dançava e sentia-se feliz a cada movimento.

Dançava e senti-se sem a necessidade de sentir.

Mas a porta do carro foi fechada. Ele partiu levando a música e a dança e a alegria embora.

Ela entristeceu.

Pausou seu momento colorido, sentou-se no mesmo lugar em que estava antes dele chegar, olhou para o céu novamente, abriu os lábios e murmurou:

- Não há felicidade intensa que não mereça um gole de tristeza.


Texto: Duane Valentim

sábado, 14 de novembro de 2009

Invertido





Afirmam que o fim vem depois do começo.

Ou este conceito é usado para termos didáticos ou eu, no meu desconcerto interno, é que vivo o contrário.

Impossível negar: É só quando algo acaba que começo a pensar incessantemente.

Meu início não antecede o fim. O fim vem primeiro e é ele o gerador de todas as buscas de um outro, e novo, começo.

(Duane Valentim)

sábado, 7 de novembro de 2009

Nossos Ventos


Fiz com que o som ao meu redor aumentasse para que eu não conseguisse distinguir uma só voz no meio daquela multidão. Fiz questão de fechar os olhos e entregar meu corpo ao balanço da música que eu mal sabia qual era. Fiz questão de deixar meus braços soltos esbarrando com todos os demais a minha volta.

E o vento me tocou.

Abri meus olhos bravos. Endureci os braços e caminhei em direção a caixa de som. Encostei meus ouvidos o mais que pude até sentir vibrar todo o silêncio que estava dentro de mim. Fechei os olhos novamente, tombei os braços e fiz o possível para que dessa vez o vento sumisse e eu sossegasse.

E o vento chegou perto de mansinho e assoprou bem baixinho: Sorria!

Obedecendo, dei-me conta de que o vento todo estava dentro de mim e que não importava quanta força eu fizesse para me desligar do universo ao meu redor que ele estaria li, mais próximo do que todos os eus dos quais me constitui.

Porque o que há de maior em todas as nossas dores, é derivado dos muitos acúmulos de ventos que vamos deixando nos invadir.

Porque o que há de menor em todos os nossos amores, é derivado dos muitos ventos que vamos deixando nos consumir.

Porque o constituir-se de ventos é tão grande quanto todos os amores que nos consomem, pois só assim, nos ventos, é que as dores se dissolvem.

(Duane Valentim)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O inquietar dos olhos


Ele abre o livro pra pensar. Pensar não no que está escrito em cada linha. Seus pensamentos vagos fazem com que seus olhos percorram toda página, palavra por palavra, sem compreensão alguma.

Ele abre os olhos pra pensar. Fixa um ponto qualquer no chão, um canto da parede ou as pontas do sapato. Ele olha minuciosamente para o nada. Olhos vagos e perdidos buscando um ponto que permita o encontro perfeito entre ele e ele mesmo.

O encontro não vem.

Os pensamentos não são mobílias. Não há como deixá-los no canto do quarto até que fiquem sujos pelo pó que vem de fora e esperar surgir uma alma bondosa para limpá-los. O pó todo está por dentro dele. Sujeira que se acumula dia após dia. E os pensamentos, agora sim, são como mobílias pesadas, difíceis de empurrar para o lado de fora da casa.

Ele olha para o alto e leva as mãos frias até o rosto na tentativa de pensar. E pensa. Pensa nessa última semana que contrasta com a inércia em que vive. Pensa no quanto o tempo é volátil, no seu eu volátil. Incertezas do mundo.

E ele busca o estável, o móvel de cimento que não permite mudanças em seu espaço. Ele busca o estável, o concreto, mas sabe que tem vontades que extrapolam a geografia limitada de seu coração.

Ele volta os olhos para o objeto que ainda segura entre as mãos e lá, na última linha do canto esquerdo: “Permita-se.”


 
(Duane Valentim)

sábado, 24 de outubro de 2009

Melodia Finita


A banda tocou novamente.
Passou em frente à praça nublada.

A banda tocou, desta vez, intensamente.
Envolvida, a praça sorriu.

A banda agora era flores.
A praça, melodia.

Clareou o dia.

A banda partiu tocando em silêncio.
A praça ficou com suas flores chovendo.



(Duane Valetim)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Mancha

                               
Era um vestido novo. Vinha acompanhado por minhas mãos desastradas que seguravam um copo de vinho. Não demorou muito para que, como de costume, eu derrubasse todo o líquido do copo nas bordas do vestido.

Vinho mancha. Manchei meu vestido.

Enquanto olhava a mancha que se espalhava no pano branco, pus-me a pensar em quantas outras manchas vamos acumulando ao longo da vida. Manchas que não saem com sabão e nem com o tempo. Manchas que estragam, que cheiram mal, que corroem, que entristecem.

Algumas delas são derramadas por nós mesmo, muitas vezes, sem nos darmos conta de que irá manchar. Outras são derivadas de esbarrões que cometemos em pessoas que já estão por transbordar.

Algumas manchas são involuntárias e nos causam raiva porque estragam o passeio. Outras são propositais e, normalmente, não nos atinge: espirram em quem mais próximo de nós estiver.

Mas o que mais me entristece não são as manchas em si _ mesmo porque, manchas existem e estão aí para toda e qualquer mão desastrada_ mas o fato de buscarem sempre o que temos de novo e mancharem tudo, por fora e por dentro do pano.

Era um vestido novo.

Vinho mancha. Mancharam meu vestido.


(Duane Valentim)

domingo, 27 de setembro de 2009

O Saturar




O dicionário das dores foi queimado.
Não há mais nada para conversar.
A linha da ponte foi demolida
E não há mais por onde passar.

O sorriso de papel foi rabiscado.
Não há mais espaço para desenhar.
A mão de algodão foi empacotada
E não há mais nada para estofar.

O disco foi quebrado
A tv desligada
O livro jogado...
E não há mais nada para falar.


(Duane Valentim)

domingo, 20 de setembro de 2009

O Sono




Eu sei que amanhã terei sono. Eu sei, mas insisto em prolongar meu tempo acordada só para não ter que me ver pensando em todas as façanhas do dia que foi, do dia que é ou do dia que virá e não será.

Eu sei que amanhã terei sono. Desses acompanhados da preguiça que não deixa fugir pra lugar algum. Desses que o estado sonolento obriga a pensar apenas no vazio. E é tão bom pensar no vazio sem ter que senti-lo. E é tão bom sentir o vazio despreguiçando lentamente, calmo e se preparando para ser o vazio que ocupa. Mas não machuca.

Amanhã é um outro dia cheio de alegrias, de sorrisos, de palavras carinhosas. Amanhã é outro dia que vem para ser sonhado, ser cantado, ser vendido.

Amanhã é dia de construir. A noite é o dia de demolir. Amanhã é dia de preencher vazios. A noite é dia de esvaziar o nada. Amanhã é dia do sono vir. A noite é dia do sono sair. Amanhã é dia de abrir os olhos e dormir.

Eu sei que amanhã terei sono. Mas é só sono e sono passa. Pior é o que não passa. O que não veio. O que veio e já passou. O que só passou. O que não ficou. O que levaram.

Dorme que passa.

E amanhã terei sono. Eu sei.



(Duane Valentim)

domingo, 13 de setembro de 2009

Pernas e Braços

Foram os braços.

Não. Foram as pernas as culpadas.

Não, não. Certamente foram os braços. Eles que abraçaram por minutos eternos e profundos e silenciosos.

Não. Claro que não. Foram as pernas as culpadas. Elas estavam distantes e não ouviram o sussurrar. Foram as pernas as culpadas. Elas que sempre teimam em tremer e se afastar e dessa vez não teimaram.

Não, não. Pensando melhor, foram os braços. Estava frio e eles se fecharam. Ficaram encolhidos e preguiçosos dentro dos outros dois braços que eram apertados e intermináveis. Se os braços tivessem abraçado com maior força, se tivessem apertado, gritado, se tivessem no mínimo calado de vez...Mas não, teimosos ficaram escondidos e aconchegantes no enlace perfeito dos outros braços.

Mas as pernas falharam. São as culpadas. Elas teriam que caminhar e não estacionar. Elas teriam que correr do perigo de sentir, de deixar sentir. Mas ficaram ali, esperando o frio passar, o sol chegar, os olhos tremerem, o tempo derreter. Falharam!

Mas e os braços? Eles se aproveitaram do não caminhar das pernas e se enlaçaram ao outro par de braços.

Mas e as pernas? Elas não caminharam porque invejaram o movimento dos braços.

Calma. Eu explico:

Os dois são culpados.
Sim. São!
São culpados porque obedeceram toda a necessidade do meu coração.


 
(Duane Velentim)