sábado, 16 de janeiro de 2010

A Espera


E ela esperou. Não sabia bem o que, mas esperou. Ficou num canto calada vendo as pessoas passarem de lá pra cá. Cutucou todos os cantos de seus dedos, enrolou fechos de cabelo. Bateu os pés num ritmo alheio ao som que tocava e sorriu para todos os conhecidos que passavam.

Ela sentou e esperou. Olhou para si e sentiu pena do que via. Por que esperava? Qual o momento mentiroso que a fez querer esperar? Para que olhar tanto para a porta, ele não vem. É tarde. 

Ela se foi. Calou a lágrima que insistia em gritar, engoliu o soluço que insistia em saltar e trancou o coração que insistia em amar.

E ela se foi. Andou pelas ruas vazias iluminadas pelo silêncio de sua solidão. Tinha todos os motivos para entender que ele não viria, mas ainda olhava para trás na esperança de ver surgir, entre uma esquina e outra, o rosto que tanto imaginava.

E ela calou.

Ele não veio. Machucava. Se ele viesse, depois machucava. Feridas machucam perto, longe, sem precisarem ser cutucadas. São feridas e ele nem sabia o que nela havia cravado. Eis o mal de todo ele que rouba o ela do hoje sem saber que amanhã ela espera. E o amanhã vem. Ele não.


Texto: Duane Valentim
Imagem: Modigliane

3 comentários:

  1. 'Eis o mal de todo ele que rouba o ela do hoje sem saber que amanhã ela espera. E o amanhã vem. Ele não.'
    simplesmente encantador!

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  2. Ia citar a mesma parte que a moça ali em cima citou.
    A espera em vão. Culpa dele que a enganou ou dela que não viu um fingidor em sua frente? Culpa de ambos, um por enganar e outro por ser enganado? Culpa do amor, que nos torna cegos.

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