domingo, 3 de março de 2013

Do que vejo e sinto, não sei nada



Dessas coisas que a gente não sabe muito bem o porquê sente. Parece estar tudo bem resolvido e racionalmente entendido, mas é um pedaço de vento bater mais forte na janela e pronto, está feito todo o tornado dentro da gente, e o que parecia estar preso, sai voando em nossa direção, nos da um golpe e nos coloca de cabeça mergulhada no travesseiro.
O incrível é a impossibilidade de calcular quantas vezes esse mesmo balançar das nossas certezas se repete. Pode trocar o personagem, mas o que vai do “ok, já sei muito bem como isso funciona”, passa para o “por que estou sentindo isso outra vez?”. E então, ficamos em silencio buscando alguma lembrança ou pista que nos traga de volta uma esperança, por mínima que seja, de que ainda temos alguma importância dentro de alguém. E no fundo, a gente sabe que o mesmo vento volta, só que com um pedaço cada vez menor da gente.


Texto: Duane Valentim
Imagem: x 

sábado, 26 de janeiro de 2013

no infinito do teto


Como aqueles machucados que aparecem em nossas mãos sem sabermos o momento certo em que fizemos, e que só nos damos conta quando o sabão atravessa, vagarosamente, cada milimetrozinho do corte.
Como quando nossos lábios adormecem entre um copo e outro sem sabemos ao certo em qual dos copos perdemos o sensível do tato, o doce do gosto, o andar das pálpebras.
Como quando, entre um pensamento e outro, adormecemos em um pedaço da noite e acordamos crentes de ser noite ainda. Mas não é.
Como quando fazemos do nosso dia, noite. Da noite, os olhos no teto. Do teto, nosso infinito. Com fim.



Texto: Duane Valentim

sábado, 12 de janeiro de 2013

...da saudade que da



Em um desses dias lentos e chuvosos, desses que não se tem nada para fazer e que se tivesse, também não seria feito, tive a grande ideia de ficar vendo várias das fotos guardadas, carinhosamente, nos últimos cinco ou seis anos.

Juntando o dia cinzento, a melancolia de cada gota de chuva na janela e a saudade vinda de dentro de cada foto, fui me lembrando, com tristeza, das vidas divididas no passado e que andam, agora, com as mãos distantes.


A casa, tão pequenina, vivia cheia. Cheia de risadas, de sonhos, de terapia. Cheia de ideologias, de discussões sobre as injustiças do mundo e do sistema. Cheia de teorias sobre o amor misturadas com o cheiro da fumaça de cigarro. Misturadas com nossos medos do futuro e com os pelos do gato da vizinha.


Eu não sei ao certo onde foi que isso tudo se perdeu. Sei apenas que as coisas foram caminhando, caminhando e caminhando, até eu chegar à casa grande. A casa grande tem histórias novas e muitas fotos ainda para serem tiradas, mas sinto uma saudade enorme do vivido lá. E a culpa foi toda cinza, que não conseguiu trazer a casa pequena dentro da casa grande. Caberia.


Texto: Duane Valentim
Foto: Aniversário 2011

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

do gosto que ficou



porque hoje estava decidida a tomar suco de goiaba. fui ao mercado, comprei duas goiabas. chegando em casa, cortei as goiabas, bati no liquidificador, coloquei no copo e tomei e, adivinha: eram peras!!! e eu demorei tanto pra entender que eram peras!!! tamanha decepção!  depois que limpei tudo, me dei conta de que já comprei muitas peras com a certeza de que eram goiabas. e não foi pelo gosto que descobri que tinha trocado as frutas. foi só com o tempo, que trouxe o podre do lado de dentro.

domingo, 16 de dezembro de 2012

No ônibus



...pois lhe conto mais, Carlos, meu amigo. Quando a vi pela primeira vez naquela festa (lembro-me como se fosse hoje), meus olhos pararam nos olhos dela e eu pensei: “que mulher linda!”. Como que lendo meus pensamentos, ela sorriu, e então eu pensei ainda mais alto a fim de convencê-la: “realmente linda!”. Só depois de um longo tempo (estava esperando minhas pernas se moverem!), é que criei coragem de ir conversar com ela. Foi aí, nesse ponto que eu errei. Não deveria ter conversado com ela, deveria ter mantido apenas a imagem da mulher linda e não a imagem da mulher linda, da voz doce, da conversa envolvente, da energia transpirante e do riso delicioso. E digo ainda mais Carlos: se errei ao descobrir essa mulher, imagine na imensidão do erro que cometi ao retirá-la da festa e levá-la para casa. Belos momentos (esses eu guardo, não conto!). Sei que não só a achei especial, como ela me fez acreditar que ela era especial, e eu juro Carlos, que eu acreditei nisso. Mas aí os encontros foram se tornando cada vez mais frequentes e o tempo foi levando embora aquela imagem da mulher maravilhosa do começo. E depois, meu amigo, conheci a Claudia... essa sim era linda! Nunca vi tanta beleza em uma mulher só! Foi por isso que disse que errei em ter conversado com a primeira. A segunda é bem mais interessante! Agora tenho me encontrado com a Cláudia, Carlos...


Texto: Duane Valentim

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Da Janela



Lá vem ela, com o sorriso no rosto e as dores nos olhos. Pela janela do seu quarto, vê o azul do céu e as nuvens que passam, lentamente. Os olhos acompanham tudo tentando aproximar os momentos que vão lá pra longe. Cada nuvem que vai, um alguém que foi. Foi pra ela porque eles nem se deram conta de que um dia eram. Ah, o amor! Quanto amar assim, só dela! O amor dela que fica só com ela! Talvez sejam os dedos que teimam em sempre escolher as melhores nuvens, as mais belas, as mais distantes e as mais dificeis de ficar. E o que sobra pra ela? Ver cada uma passar, lentamente, diante dos olhos doloridos. Dolorido ao coração e mágico para a poesia. Vamos então poetizar! Usar o amor que nasce nela (só nela) como arte de um poeta! Mas não se esqueçam: ela não aprendeu a ser poeta, só aprendeu a sorrir e a fechar os olhos para esperar uma nuvem, quem sabe, ficar!



Texto: Duane Valentim
Imagem: Duane Valentim