sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Da Janela



Lá vem ela, com o sorriso no rosto e as dores nos olhos. Pela janela do seu quarto, vê o azul do céu e as nuvens que passam, lentamente. Os olhos acompanham tudo tentando aproximar os momentos que vão lá pra longe. Cada nuvem que vai, um alguém que foi. Foi pra ela porque eles nem se deram conta de que um dia eram. Ah, o amor! Quanto amar assim, só dela! O amor dela que fica só com ela! Talvez sejam os dedos que teimam em sempre escolher as melhores nuvens, as mais belas, as mais distantes e as mais dificeis de ficar. E o que sobra pra ela? Ver cada uma passar, lentamente, diante dos olhos doloridos. Dolorido ao coração e mágico para a poesia. Vamos então poetizar! Usar o amor que nasce nela (só nela) como arte de um poeta! Mas não se esqueçam: ela não aprendeu a ser poeta, só aprendeu a sorrir e a fechar os olhos para esperar uma nuvem, quem sabe, ficar!



Texto: Duane Valentim
Imagem: Duane Valentim

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Morena



Saí de casa apressado. Peguei a moto e fui correndo para o trabalho. Fiz do trânsito algo automático e segui sem reparar em nada. Ao mesmo tempo que parei em um semáforo, uma mulher, vestida de preto, esperava para atravessar. Ela olhava para o chão e fazia algum movimento com a mão tentando manter os cabelos fora do rosto branco. Ao pisar na rua para atravessar, o vento, como que brincando, jogou com força todo o cabelo dela para trás. Ela fechou, bem de leve, um pouquinho dos seus olhos. Seus lábios se esticaram num prazer inexplicável. Os meus lábios copiaram os dela e me peguei sorrindo, dentro do capacete, para aquela mulher que passava. Aquela linda mulher morena que chegou ao outro lado da rua e que nunca mais vi. 


 Texto: Duane Valentim
Foto:Stanley Kubrick

domingo, 30 de setembro de 2012

Amor de domingo

Olhos preguiçosos da manhã.
Os lábios acordaram antes, sorrindo.
Era domingo!

Logo veio da janela o céu azul cutucar as pálpebras dos preguiçosos olhos.
Era manhã de domingo!

Dia molengo-molengo.
De tão molengo, me fez lembrar de outros domingos:
Desses que os lábios acordam primeiro e sorrindo.
Desses que a gente dorme e acorda meio-dia achando que é manhãzinha.
Desses que a cama fica apertada lembrando dos outros domingos apertados.

Cabem tantos domingos dentro de mim.
Mas eles são todos assim: começam tarde e terminam cedo.

Fechemos os olhos e voltemos a dormir:
os domingos não precisam de mim.



Texto: Duane Valentim

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Do lado de dentro


Hoje ela se olhou pelo lado de dentro. Viu todas as ilusões escorrerem de dentro dos seus olhos. E lá no fundo é sempre a mesma história: imaginando sempre mais do que realmente é. Imaginando sempre mais e sendo sempre menos. E é disso que ela gosta: inventar o que se sente, fantasiar o que se quer. Ela começa, então, uma briga com os olhos: eles não guardam as ilusões que rolam pelo rosto dela, e embora pese demais, ela não quer se livrar do exagero de coisas que sente, do exagero de coisas que o outro não sente. 
Ouviu seus olhos calarem: mas e se os olhos dele nunca mais voltarem? 
Suas pernas bambearam. Não havia mais nada para escorrer de dentro dos olhos dela, ou os olhos dela aprenderam a guardar as ilusões inventadas.  

Hoje ela se olhou pelo lado de dentro. Sentiu medo do tudo sente. 




Texto: Duane Valentim
Tela: Mulher em Prantos, Pablo Picasso

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Das coisas que sinto


Das coisas que sinto, minto:
Pra preservar o tanto que sinto;
Pra conter o sorriso que escapa (entre um silencio e outro); 
Pra guardar a alegria que transborda; 
Pra disfarçar a ausência que não sinto; 
Pra calar o abraço rouco.

Minto que acredito na própria mentira que finjo. 
Porque são tantas, tantas, as coisas que sinto.




Texto: Duane Valentim

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Agora sim, indiferente!

Lá vai ela outra vez empacotar as coisas e jogar fora o que não tinha que levar. Ela precisava mudar de casa, mudar de espaço, mudar os cantos das paredes que ela se esbarra todas as noites antes de dormir (ou depois de acordar).

Lá vai ela carregar tudo outra vez, agora, para um prédio que, na cabeça dela, seria a solução para seus pesados pesadelos da casa atual.

E ela passou o dia todo empacotando coisas, juntando caixas, juntando lembranças, juntando dores. Onde guardar aquilo tudo? “Antes não tivesse começado a guardar nada e jogado tudo fora!”, pensou ela.

Ao chegar à casa nova, cansada de carregar o peso de cada caixa, cuidadosamente completada, foi abrindo uma por uma, e dentro delas, não havia mais nada.

Texto: Duane Valentim

domingo, 13 de maio de 2012

Inveja dela


... e ela se perguntava pra que manter aquilo? Do que ela tinha medo? Do quê? De não sobrar mais nada? E aquilo por acaso era alguma coisa? Eu não sei, mas me parece que a gente inventa uns jeitos meio bestas de se sentir querido que da até vergonha da pobreza toda que sobra. E eu já disse pra ela que esse contentamento com tão pouco deve ser resultado dos amores mal amados que ela teve. No mínimo se acostumou com pouco. Que miséria!




Texto: Duane Valentim

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Do jeito que é

Eu queria poder abraçar esses seus olhos sedentos, tristes e risonhos. Eu queria poder entender essa sua alegria que gosto de ter perto, e esse seu jeito dolorido de me gostar. Eu queria poder guardar sua mão aqui com a minha e dizer que sua companhia me faz bem, que não me importo com esse seu cabelo sem pentear ou com seus pés no sofá. Eu queria entender o quanto você é capaz de me deixar à vontade, e de ser tão mulher dentro dessa menina. Mas você se esconde dentro dessa naturalidade toda, e eu acabo fingindo que acredito na minha segurança e alimento a sua, e a gente não se alcança.


Texto: Duane Valentim
Imagem: The way I am - Indrid Michaelson

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Lacuna de mim

Teve um ano aí que decide morar sozinha. Conhecer meus barulhos e meu silencio. Mas depois o tempo foi passando e minha tão desejada solidão precisou se ocupar dos barulhos alheios.
Eis que um homem se mudou aqui do lado. Pronto, estava casada minha vontade de ouvir com a novidade dele do lado de lá.

E então eu sabia tudo, a hora que ele chegava, a hora que ele saía, se estava animado (dependendo a música que ouvia), se estava irritado (pela batida da porta do carro), se ia sair (pelo perfume dele), se trazia visitas (pelo perfume não - dele)... e assim fui ocupando meus momentos solitários criando a imagem desse ser que trombei duas vezes (lógico que por mim calculadas): ele indo para o trabalho e eu levando o lixo para o lado de fora; ele voltando do trabalho e eu saindo para lugar nenhum. Depois disso, me escondi. Gostava mais de imaginar como ele era do que ver de fato como ele era. Assim ficava mais fácil acreditar na mentira que eu criava.
E era tão doce a sua companhia. Eu parava o nada que fazia só para ouvir sua voz grossa falando com o cão nos fundos da casa. E eu odiava as risadas lentas das moças que por lá ele trazia. Odiava todas elas e torcia para o cão comer a bolsa, o sapato, a perna de quem lá estivesse. Na verdade, o ódio vinha da vontade de ser uma delas, sem a bolsa, sem o sapato, mas com pernas. Só as pernas, aliás.
E em uma dessas manhãs, não acordei com o alarme do carro dele. Não escutei mais nada o dia todo. Logo imaginei uma viagem. O cachorro lá não estava. Uma semana, duas, e nada. E não é que o desgraçado foi embora! Assim, sem me avisar! Eu, que tantas noites fiquei esperando ele voltar para casa. Eu, que sabia dele mais que todas as pernas que por lá passeavam. Logo eu...tão sozinha...
Para quem é que eu vou desviar a atenção que tinha que ser minha?


Texto: Duane Valentim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Rajada

E o que me corrói aqui dentro, não é essa sujeira toda que já me acostumei a ver, não é essa falta de caráter que transborda e nem essa dissimulação toda que ri de si própria.

O que me queima aqui dentro, não é o tempo gasto, o tempo não dormido, nem o tempo que deixei ir escorrendo entre os meus sonhos frustrados.

O que me corrói, o que queima, o que dói, é o queixo travado e os dentes apertados. O silenciar do grito de revolta.

E esse tempo todo, essa mentira toda. Os dedos corroídos, as pernas atrofiadas. Os olhos parados no teto, esse tempo todo. Esses dedos, essa mentira toda. O tempo parado no teto. Pernas mentirosas, olhos atrofiados nesse tempo todo no teto corroído. Mentiras atrofiadas, nesse tempo todo que corroeu.


Texto: Duane Valentim

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Você aqui

Ainda não sei ao certo quem de nós começou com essa coisa toda. E aí te vi aqui dentro, mas não sei se está dentro ou se está só na minha ilusão do que é estar aqui dentro. E me peguei gostando disso tudo, desse seu dia que não vi, desse seu cansaço, da sua rotina, desse seu sono, do seu silencio, dessa sua paciência, da sua tristeza, das suas histórias, do seu aí, tão longe e aqui, aqui dentro...
Ainda não sei ao certo o que é sentir a sua falta, já que a presença nunca esteve, mas te  sinto tão perto que os dias que você não vem - desse jeito sem vir - ficam vazios e solitários. E ainda não sei ao certo o quanto isso tudo significa. Talvez você seja a minha necessidade de pensar em mim mesma. Talvez você seja eu mesma do lado avesso. E às vezes eu acho melhor não entender e só ter você - desse jeito sem ter. E me peguei gostando daquilo que não entendo, por não estar aí...eu, aí dentro.


Texto: Duane Valentim
Imagem: Romero Britto

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Acordou

Ela acorda pronta.
Fica pronta o dia todo.
Foi educada para estar pronta.
Ela escuta e vê e olha...tudo com a lenta paciência.

Não diz nada, mas sorri. Máscara perfeita que esconde o descaso com o mundo todo, o descaso com seu todo - mundo. 
E segura o riso dentro de si para esconder sua intolerância, sua ânsia dos pensamentos dos outros.

Mas por fora ela está pronta. Por dentro, também.
Guarda para si seu mundo mesquinho e coloca do lado de fora só o que é bem recebido.
E ri por dentro da maldade toda que esconde: Que coisa maravilhosa essa de poder saber o que se pensa, e falar aquilo que não pensa. Agradar!

Por dentro, todo o vento.
Calada, está pronta.



Texto: Duane Valentim

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Alguém

Eu, que como remédio das minhas dores submersas, inventei o dia lotado, os deveres e os prazos. Menti para os meus sonhos adiados, ignorei os alcançados, ri do meu choro e chorei por me ver sentada buscando uma dor para ser chorada.

Eu, que fiz de mim o barulho silenciado, que esqueci os poemas decorados e deixei morrer as cores da casa, me vejo, agora, sem nada para culpar. Nada. Ninguém.

Não há nada que me faça levantar dessa cama e me libertar desses pensamentos tão vazios, tão sem importância, tão sem esperança. Não há nada nem ninguém que me faça sair pelas ruas, sair pela noite, sair de dentro dessa casca mentirosa. Não há nada nem ninguém que me prenda no vazio escuro que escolhi ficar, que me prenda nesses sapatos imóveis, que me prenda nessa dor que não há.

Não há ninguém para segurar a mão livre e jogada num canto do corpo melancólico. Não há ninguém por quem o sorriso escape no rosto, por quem os olhos respirem a paz calma e doentia de quem ama.

Não há ninguém. Não há.


Texto: Duane Valentim
Tela: Tristeza