sábado, 4 de maio de 2013

Dentro em Pausas




Meus olhos ficaram mudos. Passaram pelo chão, esbarraram dentro dos olhos dele, voltaram para o chão. Calaram.

O som do sorriso escondendo o silencio que vem de dentro. Meus cabelos tocaram meus lábios. Fechei os olhos e os abri lentamente: esperança do tudo em um novo formato. 

Olhos abertos e machucados. Mudos no infinito do tudo que não foi. Parados no instante do tato, do cheiro, do gosto. Palavras surdas deslizando no canto do ouvido. Respiro...

Dói. Respiro. Dói. Tempo que passa. Ele foi passando longe dos meus olhos. Olhos que não queriam ver. Lábios cheios, mas não dos meus. 

Silencio de tudo que grita de dentro. 
Pausadamente...


Texto: Duane Valentim
Fotografia: Elena Kalis


domingo, 21 de abril de 2013

Pra onde é que você vai, menina?





E o que é que você quer, menina? Já faz tempo que escuto a mesma historinha da sempre mesma dorzinha, mas tempo de crescer, onde fica?

Pra onde é que você está andando? Cada passo pra frente vai que vai bambeando. É vontade de andar pra trás? Antes para trás, pois!

Se quer olhos novos por perto, por que quer tanto só um par deles? Se vários olhos não trazem a tão esperada estabilidade, por que então saber que olhos te olham?

Escolhe primeiro! Nem que sua escolha seja estar dos dois lados: um pé cá, outro lá! Mas estar lá e desejar o cá, ou o contrário, é trabalho demais pra minha vaga e rala psicologia. 

A menininha de ouro está perdida? 
Cansou de se arriscar pelos cantos ou de doer é que foi? 


Texto: Duane Valentim
Imagem: Oz: the great and powerful

domingo, 3 de março de 2013

Do que vejo e sinto, não sei nada



Dessas coisas que a gente não sabe muito bem o porquê sente. Parece estar tudo bem resolvido e racionalmente entendido, mas é um pedaço de vento bater mais forte na janela e pronto, está feito todo o tornado dentro da gente, e o que parecia estar preso, sai voando em nossa direção, nos da um golpe e nos coloca de cabeça mergulhada no travesseiro.
O incrível é a impossibilidade de calcular quantas vezes esse mesmo balançar das nossas certezas se repete. Pode trocar o personagem, mas o que vai do “ok, já sei muito bem como isso funciona”, passa para o “por que estou sentindo isso outra vez?”. E então, ficamos em silencio buscando alguma lembrança ou pista que nos traga de volta uma esperança, por mínima que seja, de que ainda temos alguma importância dentro de alguém. E no fundo, a gente sabe que o mesmo vento volta, só que com um pedaço cada vez menor da gente.


Texto: Duane Valentim
Imagem: x 

sábado, 26 de janeiro de 2013

no infinito do teto


Como aqueles machucados que aparecem em nossas mãos sem sabermos o momento certo em que fizemos, e que só nos damos conta quando o sabão atravessa, vagarosamente, cada milimetrozinho do corte.
Como quando nossos lábios adormecem entre um copo e outro sem sabemos ao certo em qual dos copos perdemos o sensível do tato, o doce do gosto, o andar das pálpebras.
Como quando, entre um pensamento e outro, adormecemos em um pedaço da noite e acordamos crentes de ser noite ainda. Mas não é.
Como quando fazemos do nosso dia, noite. Da noite, os olhos no teto. Do teto, nosso infinito. Com fim.



Texto: Duane Valentim

sábado, 12 de janeiro de 2013

...da saudade que da



Em um desses dias lentos e chuvosos, desses que não se tem nada para fazer e que se tivesse, também não seria feito, tive a grande ideia de ficar vendo várias das fotos guardadas, carinhosamente, nos últimos cinco ou seis anos.

Juntando o dia cinzento, a melancolia de cada gota de chuva na janela e a saudade vinda de dentro de cada foto, fui me lembrando, com tristeza, das vidas divididas no passado e que andam, agora, com as mãos distantes.


A casa, tão pequenina, vivia cheia. Cheia de risadas, de sonhos, de terapia. Cheia de ideologias, de discussões sobre as injustiças do mundo e do sistema. Cheia de teorias sobre o amor misturadas com o cheiro da fumaça de cigarro. Misturadas com nossos medos do futuro e com os pelos do gato da vizinha.


Eu não sei ao certo onde foi que isso tudo se perdeu. Sei apenas que as coisas foram caminhando, caminhando e caminhando, até eu chegar à casa grande. A casa grande tem histórias novas e muitas fotos ainda para serem tiradas, mas sinto uma saudade enorme do vivido lá. E a culpa foi toda cinza, que não conseguiu trazer a casa pequena dentro da casa grande. Caberia.


Texto: Duane Valentim
Foto: Aniversário 2011